04/12/2008

CONTINUAÇÃO



MEU PAI – SEU PAI - NOSSOS PAIS
(terceira parte)




Anos depois, minha mãe conheceu seu atual marido, a quem eu amo muito, pois sempre foi para mim tudo aquilo que o meu próprio pai não foi. Sempre nos demos muitíssimo bem e, na verdade, eu fui o grande incentivador dessa união. Minha mãe não conseguia o divórcio, pois meu pai se recusava a assinar só para atrapalhar e, assim, os dois acabaram vivendo juntos. Daí eu aproveitei para sair de casa e começar a viver a minha própria vida.

Muitos anos depois, acho que uns vinte, senão mais, eu já morava em Paraty, quando minha mãe telefonou avisando que meu pai estava muito doente e me aconselhava a ir fazer-lhe uma visita, pois ele já estava desenganado pelos médicos. Ele estava na casa do meu irmão e eu resolvi visitá-lo. Quando o vi, envelhecido pela doença, frágil, cabelos totalmente brancos, tudo o que senti foi pena. Um homem que era bonito, inteligente e relativamente bem sucedido, reduzido a um rascunho, quase sem forças e numa cadeira de rodas.

Nosso reencontro foi completamente apático. Ele me olhou e perguntou: como vai? Como se tivesse estado comigo no dia anterior! Tentamos conversar um pouco, mas a conversa não fluía. Era difícil. Fiquei lá algumas horas, depois fui embora e só voltei a vê-lo no hospital, novamente atendendo à minha mãe. Por ironia do destino, no final da sua vida, as pessoas que cuidaram dele, que o acompanharam em seus últimos momentos, foram a minha mãe e o meu padrasto! Este dormia no hospital, levava-o para passear na cadeira de rodas, fazia companhia. Foi muito triste o fim dele! Quando fui visitá-lo, encontrei um homenzinho fraco, franzino, cabeça totalmente branca e quase sem forças para falar. Quando coloquei minha mão em seu ombro, senti que ele se retesou e eu desfiz o gesto de carinho e fui chorar lá fora. Alguns dias depois, minha mãe ligou de madrugada avisando de sua morte. Fui ao enterro e, pela última vez vi o seu rosto, totalmente diferente daquele do qual eu me lembrava.

Eu contei tudo isso, em parte como desabafo, em parte para falar um pouco sobre ele e sobre a maioria dos pais de antigamente. A leitura de outros textos sobre pais e filhos sempre me emociona e, não raro, toda a minha história volta à lembrança. De qualquer forma, não culpo meu pai pela falta de atenção e carinho. Nascido na segunda década do século passado, filho de portugueses que vieram para o Brasil “fazer a vida”, trabalhou muito desde a infância. Só conseguiu estudar (fez contabilidade e direito) depois de casado, pois enquanto solteiro, minha avó o obrigou a aprender a “profissão de São José” (marcenaria). Depois de casado, livre enfim da influência de sua mãe, foi estudar, acabou virando advogado e ainda estudou inglês. E desenhava. Escondido.

Eu não sei muito mais que isso da história dele, mas imagino a vida dura e difícil que levou. O que aprendeu e as mensagens que recebeu durante toda a sua vida... homem é isso, é aquilo, não faz isso, não faz aquilo. Isso não é coisa de homem, é coisa de mulher. Com tantas limitações, o que mais ele poderia passar para os filhos? Principalmente para um que era extremamente curioso, sensível, completamente diferente de tudo o que ele esperava num filho? Eu não gostava de futebol, não brigava na rua, era estudioso e o melhor aluno da classe. Gostava de ler, de desenhar, de música... Eu não era o primogênito que ele esperava! Ou talvez eu fosse o espelho onde ele detestava se enxergar...